quinta-feira, 21 de maio de 2026

Ludicidade não se "coloca" na aula — ela já está lá (ou foi expulsa)

Hoje acordei pensando em cada da turma e venho fazer uma (mais uma)  provocação necessária para quem pesquisa, ensina e aprende no Ensino Superior.


Existe uma crença bastante resistente nos corredores da universidade e, surpreendentemente, também entre pesquisadores que deveriam questioná-la. Ela soa mais ou menos assim: "Ludicidade é coisa de criança. Na graduação, tudo bem. No doutorado? Precisamos de seriedade."

Vou convidar você a desmontar essa frase. Não por provocação gratuita, mas porque ela revela um equívoco conceitual que compromete a compreensão do que é ludicidade, do que é aprender e, por extensão, do que é ser humano.

O primeiro equívoco: achar que ludicidade é algo que se "insere"

Quando alguém diz "vou usar uma estratégia lúdica na minha aula", o que essa frase pressupõe? Que a ludicidade está fora do processo, esperando ser convocada. Que ela é um recurso, um material, uma técnica — algo externo ao sujeito que se adiciona à experiência como quem coloca sal na comida.

Esse entendimento é, epistemologicamente, equivocado. Cipriano Carlos Luckesi, o pesquisador brasileiro que mais consistentemente se dedicou ao tema, é categórico: ludicidade não é sinônimo de jogo, brincadeira ou material didático específico. Ludicidade é um estado interior, uma qualidade de experiência que se caracteriza pela inteireza do sujeito naquilo que faz. O estado lúdico é aquele em que não há fragmentação entre razão e emoção, entre o que se faz e o que se sente ao fazer. É presença plena. É entrega.

Isso significa que uma aula expositiva pode ser profundamente lúdica, se o professor e os estudantes estiverem inteiramente presentes, mobilizados, em estado de descoberta. E um jogo digital pode ser completamente não lúdico, se for vivido como obrigação, performance ou cumprimento de tarefa.

Ludicidade não está no objeto. Está na experiência. Portanto, não existe "material lúdico" em si. Existe, quando muito, um artefato que pode favorecer, em determinadas pessoas, em determinados contextos, em determinados momentos, o acesso a esse estado. O que é lúdico para um pode não ser para outro. Isso não é relativismo: é o reconhecimento de que a ludicidade é uma experiência subjetiva, intransferível, não padronizável.

Quem ainda debate se "deve ou não usar jogos no Ensino Superior" está, sem perceber, fazendo a pergunta errada.

O segundo equívoco: achar que adultos "superam" a dimensão lúdica

Há uma narrativa desenvolvimentista ainda muito presente na educação e na neurociência popularizada de forma apressada, que trata a ludicidade como estágio infantil: algo que o sujeito precisa para se desenvolver nos primeiros anos, mas que vai sendo substituído pela razão, pela abstração, pela maturidade cognitiva. A ciência não sustenta essa narrativa.

Estudos de neurociência cognitiva demonstram que o estado de flow, que conversamos em sala, conceito desenvolvido por Mihaly Csikszentmihalyi para descrever a imersão total em uma atividade, com supressão do senso de tempo e de si mesmo, ativa circuitos de recompensa dopaminérgica, especialmente no núcleo accumbens e no córtex pré-frontal ventromedial. Esse estado de flow é funcionalmente equivalente ao que Luckesi descreve como estado lúdico. E ele ocorre em adultos com a mesma intensidade e frequência que em crianças, às vezes mais, dada a maior capacidade de atenção sustentada.

E digo/escrevo mais: pesquisas em neuroeducação indicam que o engajamento emocional não é um bônus ao aprendizado, é sua condição. Damasio (1994) já demonstrou, a partir de estudos com pacientes com lesões no córtex orbitofrontal, que a dissociação entre emoção e cognição prejudica dramaticamente a tomada de decisões e o aprendizado significativo. Aprender sem afeto não é aprendizagem profunda: é memorização transitória.

A dimensão lúdica não é imatura. É, ao contrário, o estado em que o ser humano, em qualquer idade, aprende com mais profundidade, criatividade e integração.

O terceiro equívoco: confundir rigor com solenidade

A cultura acadêmica, especialmente na pós-graduação stricto sensu, frequentemente opera uma equação tácita: quanto mais sério o ambiente, mais legítimo o conhecimento produzido. A gravidade do tom seria, nessa lógica, sinal de profundidade intelectual.

Mas pergunte a qualquer físico que viveu o momento em que uma teoria se encaixa, a qualquer filósofa que se perdeu por horas em um problema até que algo se iluminasse, a qualquer programador que ficou em estado de flow resolvendo um bug às três da manhã: o que eles descrevem não é solenidade. É alegria. É entrega. É jogo.

Johan Huizinga, em Homo Ludens (1938), já havia identificado que o jogo — entendido em sentido amplo — antecede e permeia toda a cultura humana. A filosofia, a ciência, a arte, o direito: todas essas formas de organização humana têm estrutura lúdica em sua origem. O pesquisador que formula uma hipótese está jogando com possibilidades. O doutorando que constrói um argumento está, se estiver vivo naquilo que faz, em estado lúdico.

O rigor não se opõe à ludicidade. O rigor floresce quando há ludicidade — porque é no estado de inteireza que o pensamento se torna mais livre, mais ousado, mais preciso.

Vamos aprofundar um pouquinho mais... o que as evidências científicas diz sobre ludicidade no Ensino Superior?

Não se trata de opinião ou posição filosófica isolada. A literatura científica das duas últimas décadas é consistente: Jensen et al. (2022), em revisão hermenêutica publicada em Arts and Humanities in Higher Education, identificaram que abordagens lúdicas no Ensino Superior não representam simplificação do conhecimento, mas abertura para formas mais integradas e reflexivas de aprender, formas que mobilizam a subjetividade do estudante e não apenas sua capacidade de armazenar informações.

Rodríguez Ferrer et al. (2025), em revisão sistemática sobre metodologias lúdicas para avaliação no Ensino Superior, encontraram resultados positivos consistentes em motivação, colaboração e aprendizagem significativa. A resistência à adoção dessas metodologias não é de ordem científica, é cultural e institucional.

Ramos e Pimentel (2021) demonstram que o engajamento lúdico em contextos digitais ativa atenção, memória, resolução de problemas e criatividade de formas que a instrução direta raramente alcança, não por ser mais fácil, mas porque coloca o aprendente em posição ativa e significativa.

Marfisi-Schottman (2020) defende que aprender por meio de jogos no Ensino Superior exige tomadas de decisão, negociação de sentidos e construção ativa de soluções, exatamente as competências que o mundo do trabalho e a pesquisa de ponta demandam.

O acúmulo de evidências não deixa margem para a posição de que ludicidade é "coisa de criança" ou "incompatível com o rigor do doutorado". Essa posição é, ela sim, acientífica.

Uma pergunta para o pesquisador que lê isso: pense no último momento em que você aprendeu algo de verdade. Algo que transformou sua forma de ver um problema, que se encaixou de uma forma que você não esperava, que ficou. Como você estava nesse momento? Distraído? Fragmentado? Operando no modo automático? Ou estava inteiro, emocionalmente presente, cognitivamente aceso, temporalmente suspenso?

Se foi a segunda opção, você estava em estado lúdico. Independente da sua idade. Independente da seriedade do tema. Independente do nível do curso.

A ludicidade não precisa ser inserida na sua pesquisa ou na sua prática docente. Ela precisa ser reconhecida onde já existe, e cultivada onde foi sufocada por anos de uma cultura que confundiu aprendizagem com sofrimento produtivo.

Para continuar essa conversa assumo que este post é um convite. Se você é doutorando(a) ou mestrando(a) e resiste à ideia de ludicidade no Ensino Superior, não peço que concorde, peço que investigue, como tenho defendido desde o primeiro dia de nossas aulas. Leia Luckesi com atenção. Leia Huizinga. Leia os dados de Csikszentmihalyi sobre flow. E, principalmente, preste atenção em você mesmo(a) quando está verdadeiramente aprendendo.

A criança que habita em você não foi embora. Ela só aprendeu a se calar em ambientes que não a acolhem. A universidade pode — e precisa — ser um desses ambientes que a acolhem de volta.


E, com certeza, fiquei curioso. Você consegue identificar, nos últimos dias, este "estado lúdico"? Conta aqui nos comentários algum momento em que você esteve pleno(a), inteiro(a), entregue... e que sentiu esse sentimento associado à razão lhe trazendo satisfação, paz, alegria, contentamento... motivação para seguir adiante.

6 comentários:

  1. Há cerca de 14 dias, vivi um momento que consigo associar totalmente a esse “estado lúdico”. Eu estava em uma conversa com o meu grupo de pesquisa e, apesar de não ser uma aula formal, foi um dos momentos de maior aprendizado que tive nos últimos tempos. Estávamos discutindo questões extremamente importantes da nossa área de pesquisa, e cada ideia apresentada parecia se conectar naturalmente à outra, ampliando ainda mais nossa compreensão sobre o tema.

    O mais interessante é que havia uma forma ilustrativa de organizar as ideias, utilizando post-its que podíamos associar, mover e conectar conforme a discussão avançava. Aquilo transformou a conversa em uma construção coletiva muito dinâmica, porque conseguíamos visualizar os conceitos, relacionar pontos e perceber como nossas reflexões iam ganhando sentido em conjunto. Não era apenas ouvir ou falar, mas participar ativamente da construção do conhecimento.

    Enquanto lia esse texto, percebi o quanto aquela experiência dialoga com a ideia de que a ludicidade não está no recurso utilizado, mas na experiência vivida. Os post-its, por si só, não eram “o lúdico”. O que tornou aquele momento significativo foi o estado de envolvimento, presença e descoberta que vivenciamos durante a atividade. Em vários momentos, perdi até a noção do tempo, porque estava completamente imersa na discussão, tentando compreender, relacionar conceitos e imaginar até onde nossas pesquisas podem chegar.

    Foi uma experiência que trouxe muita satisfação, motivação e alegria em estar ali aprendendo. E me fez perceber, na prática, que o rigor acadêmico não se opõe à ludicidade. Pelo contrário: talvez seja justamente nesses momentos de troca, curiosidade e construção coletiva que a pesquisa se torna mais viva, significativa e transformadora.

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  2. Essa semana vivi uma experiência totalmente associada ao lúdico na pós-graduação, especificamente, no mestrado, na disciplina de Pesquisa Educacional, que foi proporcionada pelo meu grupo do seminário, no final da apresentação, utilizamos o Kahoot para que os participantes pudessem testar seus conhecimentos acerca dos conceitos das pesquisas narrativas, a experiência foi totalmente cativante, envolvedora e que fez com que todos participassem, inclusive, tirou boas risadas, até mesmo do professor.

    Contarei essa experiência com mais detalhes em uma postagem no meu blog.

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  3. Quando o professor Fernando aborda esse tópico de discussão, sou convidado a refletir, mais uma vez, sobre como a ludicidade já se encontra presente nas diversas atividades que realizamos. Conforme pontuei anteriormente, pensar a ludicidade no Ensino Superior pareceu-me, inicialmente, um desafio complexo, visto que a associava estritamente a brincadeiras e jogos. Contudo, as discussões ampliaram essa visão, revelando que o lúdico configura-se, na verdade, como um estado interior; uma qualidade de experiência que se caracteriza pela inteireza do sujeito naquilo que faz, conforme postula Luckesi (2022). Antes de tudo, faz-se necessário compreender a ludicidade a partir de sua vertente epistemológica, evitando as lacunas conceituais e as visões reducionistas que geralmente permeiam o senso comum.

    Sinto-me entusiasmado pelo fato de o componente curricular permitir, assim como ocorreu em outros tópicos de debate, a desmistificação de ideias preestabelecidas. Uma experiência que vivenciei nessa direção ocorreu na própria aula de TDE, momento em que fomos instigados a montar um quebra-cabeça para desencadear as discussões a respeito da criação dos frameworks. Essa dinâmica prática não apenas ilustrou o conceito, mas também fomentou uma reflexão sobre o nosso papel, enquanto pesquisadores, na difusão de conhecimentos para os profissionais que atuam na Educação Básica.

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  4. Perceber nossa “criança interior” sendo acolhida em pequenos detalhes tem me conduzido a esse estado lúdico vivenciado constantemente nas aulas da pós-graduação. Seja no copo descartável que nos convida ao esvaziamento, seja na frase metafórica que nos impulsiona ao mergulho e à reflexão, cada experiência tem provocado novos sentidos e aprendizagens.
    O estado lúdico, melhor compreendido a partir dos estudos desenvolvidos nesta semana (especialmente a partir das discussões presentes nesta postagem), tem sido experienciado durante as aulas mediadas por diferentes artefatos, mas também por meio de leituras que favorecem conexões com a prática, diálogos com aprendizagens anteriores e a construção de novos significados. Mais do que atividades pontuais, essas experiências têm possibilitado vivenciar a ludicidade como um movimento de envolvimento, sensibilidade e produção de conhecimento.

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  5. Em 2017 quando estagiária tive uma dos fechamentos de ciclos que ninguém espera viver, mas por está vivo, tem que viver... A transição do meu pai para a eternidade e me vive uma criança novamente, indefesa, ferida pela perca, mas tinha várias outras crianças ao meu lado. Aquelas que me receberam na tarde que ele partiu e que pela primeira vez em 34 anos ele me tomou a benção e me disse que as crianças precisavam de mim... Na outra semana tive um trabalho de oficina de matemática com minhas amigas de curso e carinhosamente e acolhedoramente a oficina foi sobre a matemática do campo e com todo o "rigor acadêmico" entregamos uma sala de aula de interior com tudo que nos lembrávamos sobre a etnomática, EJA e Paulo Freire e acolhedoramente fui acolhida pelo Professor Carloney Alves que hoje tem imenso respeito pela forma como nesse momento transformamos uma oficina que foi para muitos "crises de gastrites" e para nós naquele momento se transformou em acolhimento, brincadeira e aprendizado. Desde aquele dia a proposta de toda a minha formação está no brincar e na representação simbólica de "SER" criança e sua espontaneidade o Projeto de Doutorado veio de um conselho de uma criança e sábia... Só tenho cuidado, porque as vezes é difícil compartilhar os brinquedos com os coleguinhas e não competir nas melhores performances.

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  6. Sim, tenho vivenciado o lúdico na disciplina. Como Cipriano Luckesi afirma, o lúdico está relacionado a um estado de entrega, pertencimento e prazer em estar vivendo determinada experiência. Nesse sentido, percebo que cada aula tem proporcionado esse sentimento de envolvimento e construção significativa do conhecimento. A cada encontro, sinto vontade de participar, de construir, de dialogar e de retornar na aula seguinte. O lúdico, para mim, manifesta-se justamente nesse processo de sentir-se bem enquanto aprende, questiona e produz sentidos. Inclusive, há também aquele sentimento de que a disciplina fará falta ao final, justamente pela intensidade das experiências vividas e pelas reflexões construídas ao longo do percurso. Além disso, sair das aulas com inquietações, buscar respostas, gerar novas dúvidas e continuar refletindo sobre os temas discutidos demonstra o quanto a disciplina tem provocado um movimento ativo e significativo de aprendizagem. Dessa forma, considero que tenho vivenciado o lúdico de maneira muito presente nessa experiência formativa.

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